quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

CARTA DE SUICÍDIO


Provavelmente minha alma já deve ter encontrado o céu agora. É tarde e eu fiz tudo isso com todos os planos para que nada desse errado. Eu espero esse fim há muito tempo. Papai e mamãe, eu queria que ao menos uma vez vocês olhassem pra mim e dissessem que tudo ia ficar bem. Eu queria que vocês tivessem acreditado em mim. Eu queria mais tempo para explicar-lhes a dor que me habita, mas hoje ela transbordou e o relógio está tocando as quatro badalas da morte. Desculpem-me por tudo, mas eu não consegui ouvir os consolos dos inúmeros pares de sapatos e roupas de marcas que vocês me abarrotavam. Eu tinha tudo, menos amor, e era amor o que eu mais precisava. Eu não sei explicar. Talvez eu tenha me seduzido pelas bebidas e pelas drogas, pelas facas, pelas lâminas. Elas eram minhas amigas mamãe. Conversavam comigo sempre que eu estava sozinha, e ah, eu gostava tanto delas. Você entende? Quando eu não tinha mais ninguém, elas me acolhiam. A noite vinha fria demais, o coração apertava demais, e os olhos, ah os olhos, estes vão apagar em minutos. Eles cansaram muito de chorar. Mergulharam tanto em lágrimas que não conseguem mais ficarem sóbrios. Eu peguei os seus remédios papai. Eles são coloridos e eu gosto de cores. Combinei o marrom com o vermelho - a mamãe adorava essa combinação. E os amarelos ficaram por último, porque amarelas foram as flores do enterro da vovó. Os meus pulsos nunca estiveram tão vermelhos e meus olhos nunca se afogaram tanto. Eu mergulhei nas ondas da angústia e a vida não me deu bóias. Sinto muito, eu me afoguei. E eu gosto muito do vermelho, e dos meus pulsos. Meus pulsos. Lembra quando me perguntaram se eu os tinha machucado? E eu respondi que havia um prego na mesa da escola, pois é, o prego era o estilete que o papai usara para cortas os cartões do seu novo escritório. E o machucado, ah, ele não importa pra vocês. Hoje eu quis mais vermelho, eu quis mais sangue. E eu consegui. Ficarei inundada nas marés apaixonantes do inverno e sorrirei, quando despercebida, chegar ao mundo que eu tanto sonhei. A água, o vinho, os venenos. Estão todos aqui, estão assistindo ao meu fim. São a minha plateia fabulosa, silenciosa e agradavelmente fria. Eu nunca quis fazer ninguém chorar, mas ninguém nunca se importou com as minhas lágrimas. Faço justiça então. Ninguém nunca vai entender minha dor, porque só eu sei o quanto mata. Não se perguntem por que eu morri agora. Se perguntem por que é que vocês ainda estão vivos. Eu lutei demais. Eu sofri demais. E, papai eu já estava morta há muito tempo, dentro de mim mesma. Deus pode ter exagerado no meu fardo, mas ele abusou da minha coragem. Coragem esta que me conduz ao precipício agora. Pode ser que eu pague tudo em outra vida, mas hoje eu preciso matar a dor. O hoje é o que me importa. Eu não vou viver o amanhã. Não há ninguém para me salvar, e eu não sinto muito. Dou graças a Deus pelas circunstâncias favoráveis do dia de hoje: chuva, muito trabalho, cidade agitada, fim de ano e casa vazia. Amanhã nos jornais, eu, infelizmente vou ser a capa – “Menina perfeita se suicida e deixa carta.” Eu só quero que saibam que eu tentei apesar de tudo. Minha mente sempre será uma incógnita para todos, e para mim, ela é apenas a perfeição. Hoje eu protagonizarei meus diversos contos publicados nos jornais da escola.


Eu estou partindo, pra sempre.


Com carinho,
                         Ofélia. "


Vi esse texto no tumblr e quis postar aqui. Créditos à: Coffee and Pain (tumblr).


@sahbellatrix

Nenhum comentário: