domingo, 25 de dezembro de 2011

Narração atípica

      Um silêncio constrangedor, ameaçador ou apenas um silêncio vazio,  pairou entre os dois. Aparentemente ninguém iria quebrá-lo, então ela o fez.
      — Quando eu era pequena, eu sonhava em ter uma casa com inúmeros quartos. Não, não para o que você está pensando, eu não pensava em pôr muitas pessoas embaixo do mesmo teto que eu, sabe que eu não aguentaria e acabaria em um hospício! — Ela riu suavemente pela sua piada não tão engraçada. Ela estava em devaneio, seu cérebro e seu coração definitivamente destrancado e aberto, respectivamente. E ele, bom, ele a ouvia calmamente com o mesmo olhar disfarçadamente amoroso e face séria de sempre. Ele também não estava exatamente ali.
       "Eu queria muitos quartos pois queria decorá-los um mais diferente do outro, assim poderia libertar minha imaginação. Todas as noites eu imaginava como seria um e o decorava na minha cabeça. Certa vez imaginei um totalmente vermelho, desde o vermelho sangue até o vinho, todos os tons. E imaginei também um azul, também com todos os tons, desde o turquesa até o anil. Como fogo e gelo, sabe? Como... " — Ela desprendeu sua visão do nada em que estava e o olhou, talvez estivesse procurando a palavra certa ou talvez só esperasse que ele terminasse a frase. Não aconteceu nenhum dois dois, ela inclinou a cabeça para a esquerda e sorriu docemente, como sempre fazia.
       Voltou a olhar para o chão, ou para o nada, não é muito fácil adivinhar. Ela continuou falando: — Criei quartos imaginários rosa bebês para quando eu me sentisse infantil e pura, inocente. Criei quartos pretos e cinzas para quando eu me sentisse deprimida. Fiz quartos coloridos como o arco-íris para quando me sentisse alegre. Fiz quartos bem simples também, como aqueles em cabanas à beira do mar. Alguns eram ricos e outros eram humildes. Alguns eram minimalistas, básicos, com cores neutras. E outros eu imaginava com cores vibrantes.
       "Imaginei um quarto para minha primeira noite após meu casamento. — Ela abaixou a cabeça, o rubor translúcido em suas maçãs do rosto. — Imaginei os dos meus filhos e os pra cada fantasia que eu tivesse."
       — E o que isso quer dizer? - As palavras não saíram com o significado e tom que ele esperava. Saíram ríspidas demais. Ela não se abalou, continuou com o sorriso doce, agora olhando-o de frente, olho a olho.
       — Quer dizer que eu sou mesmo indecisa. E que ninguém me conhece. E que eu posso ser muitas e ter várias personalidades diferentes dentro de mim, sendo apenas eu. Isso é importante pra mim, faz parte de mim e eu quis te contar. Foi você quem eu escolhi.
       — Sabe que não mereço, que não sou o bom moço que você pensa e... — Ela se levantou e pousou um dedo sobre os lábios dele, que se fecharam imediatamente.
       — É, eu acredito mesmo em contos-de-fada e em príncipes com cavalos brancos que trazem um sapatinho de cristal pra mocinha pobre calçar e se casarem. Eu acredito mesmo em finais felizes e sei que esse era pra ser um defeito, mas e daí? Eu pelo menos sou sincera comigo mesma. — Ela deu uma pausa e o fez olhar em seus olhos novamente. Estava claro que ele sentia dor. Não física, mas dentro de si. E ela continuou: — Sei que um dia você me vê de salto alto rosa e vestida de patricinha e no outro me vê de coturno e sombra preta. Sei que um dia eu estou, literalmente, com penas no cabelo e em um dia o tenho liso e no outro cacheado e por assim vai, mas quem se importa? Dane-se! Essa sou eu. Se olhar nos meus olhos como está fazendo agora, verá que eu sou sempre a mesma. Mesmo acreditando em contos-de-fada perfeitos e em felizes para sempre ao mesmo tempo que ouço rock n' roll. Mas dá pra olhar de novo? É só escutar a batida, é sempre os mesmos gêneros de instrumentos que soam juntos em qualquer tipo de música. Inclusive no meu Ipod. E no meu coração.
        Ela o beijou na bochecha e saiu, triunfante e aliviada. Finalmente era quem sempre foi, cabelos longos, nerd, punk e a garota mais doce, carinhosa e compreensiva de todas. Mas longe de ser perfeita, afinal, ela havia transposto essa barreira e agora estava feliz, pelo menos aparentemente. Se dirigia ao estacionamento, quando ele a segurou pela cintura. Sua face nunca havia demonstrado qualquer emoção, até aquele momento.
       — Escuta, só por um minuto Sam. Você disse tudo que queria, mas eu não. Entenda que você não merece um cara como eu. Sou daquele tipo que ninguém se mete e nem ousa chegar perto, você sabe disso. Sou o tipo especializado em quebrar corações, mas... — O primeiro sorriso dele em anos escolares apareceu! Disfarçado, intrigante, quase sexy. — Mas o seu é de ouro. Não se quebra. E precisa de altas temperaturas pra derreter. - Ele riu, ela também. — Não precisava ter me dito tudo aquilo. Eu sempre soube quem você era e é desde o momento em que atravessou a droga do corredor de coturno com tachas e spikes e o vestido mais florido que eu já vi na vida aliados aos livros que estavam em seus braços. Eu também não sou perfeito. Se não percebeu, eu sou o excluído com cara de bad boy, que usa dreadlock e ouve punk e música clássica. E eu já cometi muitos erros. Não vou cometer o próximo que seria te deixar ir embora da minha vida, porque só quando você apareceu ela ficou mais divertida, mas mais dolorida também, então eu te peço que pare de me bater. — Riu de novo. Nervoso? Ele? Possível e real! — Eu posso ter quebrados muitos corações, ter saído da vida de muita gente e muita gente também saiu da minha vida. Mas com você será diferente. Eu ficarei bem aqui, vou fazer você ter seu felizes para sempre. Não vou cometer outro erro.
        Silêncio, silêncio e silêncio. Chegava a a ensurdecer. E o imã dentro deles, de pólos diferentes, os fizeram diminuir a distância entre os lábios dele e os dela. Seria óbvio o beijo deles agora. Era o felizes para sempre por enquanto. Fogo e gelo.
       Ela não era o tipo de garota normal, habitual. Estava longe disso. Mistério era o nome do meio dela. Ele, também. A diferença? Doçura e amargura, respectivamente, mesmo que às vezes trocassem os papéis. Pelo menos tinha pimenta em ambos os cardápios.


@sahbellatrix

Um comentário:

Anônimo disse...

muito legal