domingo, 23 de novembro de 2014

Sentimento da década: decepção

Já fiz um post sobre decepção anteriormente, mas como o destino é cruel e o sentimento veio à tona novamente, cá estou.
Bem-vindo, bem-vinda ao mundo mirabolante em que resido. Há praticamente sete anos eu morava em São Paulo e estava na quinta série. Naquela época meus afazeres consistiam em brincar de Barbie, fazer minhas lições-de-casa e escrever pra concursos de redação, dos quais um eu ganhei. Naquela época ainda, eu me preocupava em parecer adulta visto que eu tinha corpo pra isso, mas não mentalidade. Eu gostava de passar as maquiagens da minha mãe, escondida, na sala de depilação do salão em que ela trabalhava, mas saía de lá na surdina para que ninguém me flagrasse com tanta cor no rosto. Eu pintava as unhas e as roía pra tirar o esmalte ou pra inibir minha vergonha. Ou para as duas coisas. Eu, apesar de ter sobre mim um incrível sentimento de vergonha e repressão, era feliz aos 11 anos. 
Eu usava saltos infantis e me achava adulta e linda. Eu usava calça flare com bata e pulseiras enormes de acrílico, e me sentia bem. Eu desenhava roupas em todos os papéis que encontrava pela frente e eu jurava que faria moda na USP. Naquela época eu não sabia que USP era uma sigla, nem que era uma universidade e nem a diferença entre universidade e faculdade. Eu só sei que queria fazer lá porque lá era difícil e eu era foda e passaria. Aliás, eu nunca tinha ouvido a palavra 'foda'.
Evidentemente as coisas mudaram. Compras de fim de ano ficaram para trás, roupas coloridas ficaram para trás, minha auto-estima decidiu também não seguir viagem. Eu mudei. Mudei de cidade, mudei de personalidade, mudei de vida, mudei de hábitos. E as pessoas ainda acham que eu ficarei surpresa quando me dizem: "eu acho que você mudou...". Sim eu mudei e não, não escolhi mudar.
Aos 12 eu já estava no interior. Aos poucos a ilusão de que seria apenas uma férias prolongada passou  e eu percebi que algo ruim tinha acontecido. A partir de então eu fui incumbida de inúmeras responsabilidades que não eram pra mim, nem pra minha mentalidade. Eu passei da pré-adolescência para a adolescência com pesar.
A experiência na primeira escola foi catastrófica e poucas são as coisas boas que levei de lá. Já na segunda, tive ainda mais experiências e continuo tendo, em sua maioria ruins. Poucos ou nenhum foram os amigos que levei de ambas. Hoje me considero alguém sem amizades, sempre foi assim e duvido que haja previsão de mudança desse estado.
Aos 13 eu achava que faria amizade se fosse igual às outras meninas, logo cortei o cabelo e passei a usar maquiagem pra ir à escola, e o reflexo desse esforço, em vão diga-se de passagem, é a minha pele marcada pelas inúmeras espinhas que tive. Eu estava sozinha.
Aos 14 eu dei o meu primeiro beijo, e me arrependi; eu criei o blog para ter alguém com quem conversar, o único alguém que nunca iria me abandonar, o único alguém que seria sempre meu, apenas meu. Ainda aos 14, as brigas eram incessantes em casa e eu continuava sozinha, assim adentrei no mundo fake, que talvez a maioria não conheça. Disso não sei dizer se me arrependo, só sei dizer que era o que me fazia esquecer das tristezas que, naquela idade, se faziam insuportáveis dentro de mim.
Aos 15, tive depressão e ninguém viu (ou quis ver). Eu mentia para o meu cérebro, ou para o meu coração, (ou pra ambos), que era apaixonada por alguém simplesmente pra não me sentir tão sozinha. E assim eu trocava de namorados invisíveis e intocáveis que nem mal, e nem tanto bem, me fizeram. Como antes, me faziam esquecer durante um tempo. Eu gostava disso, de me embriagar com qualquer coisa que me fizesse esquecer, eu me prendia aos fatos e vivia em outro mundo. Quando não estava lá, eu dormia. Aos 15 ainda, eu faltava em muitas aulas, ou as matava dentro do banheiro da escola, com medo dos estupros e da violência que havia, obscura, na minha casa.
Chegados os 16, tentando superar a depressão que me afundava em um poço sem saída e sem luz, conheci alguém que está na minha vida até o momento e não tem previsão de saída, e assim espero que continue já que boa parte da minha sustentação é por causa dele. Nessa mesma época, eu tive verdadeiras primeiras experiências amorosas, eu soube o que era ter alguém, mas como sempre, o destino não esquece de ninguém. Assim, além de toda pressão e toda violência existente dentro de casa, descobriu-se que minha mãe estava com câncer. O mundo decidiu desabar de vez sobre minha cabeça desde então. Tudo virou um caos.
Eu deveria me preocupar com os estudos, com a limpeza da casa, com a janta, com o almoço, com o horário de acordar, com o namoro que estava começando, com me manter magra depois de perdidos quase 10 quilos, com não ultrapassar com os limites que me eram impostos em relação a deus e a sexo, com tudo menos com ser uma adolescente normal. A normalidade passou a não ser mais uma palavra usada no dicionário da minha vida.
No ano seguinte, aos 17, mais uma preocupação: o vestibular. Nunca havia deixado minhas notas caírem, me esforcei ao máximo, tinha o sonho de passar na melhor faculdade. Então veio a escolha da profissão e, para a surpresa geral da nação, escolhi medicina. Como se já não bastassem obstáculos suficientes... A partir daí tinha o sonho de passar na mesma faculdade que o meu namorado, morar junto, ir embora da cidade que até então só mal me fazia. Por acreditar no meu esforço e nas minhas posições e resultados de simulados na classe, eu era otimista. Durante alguns momentos voltei a ser feliz. Vi um futuro palpável de felicidade real. Por um momento, acreditei num futuro melhor. Eu estava cansada de ser sempre pessimista.
Minha mãe se recuperou, voltou a trabalhar depois de anos parada, mas não significava uma melhor situação em casa. A tensão só aumentava e com isso o que não podia ser evitado se aproximou cada vez mais: a separação. Enquanto isso eu via estampado em cada vestibular o meu fracasso, o meu esforço em vão. Chegou formatura, colação de grau, e tudo o que eu sentia era frustração. O desespero de chegar aos 18 e continuar na casa dos pais me enlouquecia.
Como não era o maior problema do mundo, deixei que passasse após muito esforço para esquecer. Fui forçada a ter responsabilidade e procurar emprego. Passei de uma tempestade em alto mar para um tsunami. Comecei a trabalhar para que minha mãe pudesse sair de casa e se livrar do que só a machucava. O fiz por amor.
No começo, tudo são rosas. Estava animada e otimista. Jurava que não seria cansativo trabalhar e estudar, jurei pra mim mesma que daria certo. Não deu. Hoje, aos 18, estou desempregada e levando bomba nos vestibulares por não ter dado conta de fazer nem um nem outro. Estou sozinha, pois quem eu tinha, passou, e eu fiquei. Como sempre fico.
Minha vida têm sido repleta de colagens mal feitas, frases incompletas e fracassos acumulados. Todos os esforços não são suficientes. E logo vem a frustração.
E ainda tem quem diga, como conselho, que tudo isso "vai passar", me mandam esquecer, "bola pra frente". Como?, eu lhe pergunto, mas ninguém sabe a resposta pra minha pergunta. Porque passar por tudo o que passei, e que passo, e que não cabe num único post, e continuar vivendo já é uma vitória. E isso é o que as pessoas nunca entenderão. E continuarão me cobrando por coisas que não têm ideia de como é, continuarão me fazendo sangrar. E de tudo, o que mais me arrependo, foi por ter sido covarde quando tive meu best shot.

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