domingo, 15 de novembro de 2015

Necrose amorosa

"Em minhas mãos agora tá cada parte dessa nossa história e eu não sei se eu rasgo ou jogo fora... E o que é que eu faço agora?"

E porque, mesmo depois de tudo, eu continuo sentindo sua falta? Apesar das mágoas, eu continuo topando contigo nas fotos e continuo chorando. E a cada foto você abre uma nova ferida no meu coração com o bisturi dado pela vida à ti, frase esta com muita ironia visto que sua intenção sempre foi ser cirurgião cardíaco.
Comecei a perceber que a vida cruzou nossos caminhos de um jeito irritante... Nossas futuras profissões nos fizeram amantes e, agora, colegas, e por mais que eu queira esquecer ou jogar fora as nossas lembranças, você está sempre ali para retomá-las. Elas estão todas estampadas na sua cara lavada de quem é feliz sem mim.
Quão errada eu fui em montar minha vida, minhas experiências, sobre alguém que facilmente desistiu de mim? De nada posso lembrar agora, pois você está ali. Fico, em vão, tentando construir novas histórias para esquecer aquelas do início. Quero tanto escrever nas folhas da minha vida que de repente ficaram em branco que tudo acaba sendo rabiscos.
Eu já estou ficando cansada de fingir pra mim e pra todos que estou bem e depois perceber que não estou, e ficar subindo a montanha pra depois escorregar até o ponto inicial e ter que começar tudo de novo. Eu tô cansada das tentativas em vão de te esquecer e também das tentativas de trazê-lo pra perto de mim. Ambas dão errado, extremamente errado.
O ano está no fim, nosso relacionamento chegou ao fim, e a minha vida está apenas começando. Tudo tão irônico, indiferente, triste. Tudo cinza.
Perdê-lo foi azul como se eu nunca tivesse conhecido, sentir a sua falta foi cinza escuro, totalmente solitário... Esquecê-lo foi como tentar saber sobre alguém que você nunca conheceu. Mas te amar, foi vermelho.
Ouvir a sua voz é tão incomum agora, algo que eu nem poderia imaginar como era. Desvinculá-lo de cada livro que pego na biblioteca é quase impossível... Como esquecer alguém que te ensinou tantos locais anatômicos, tantas moléculas de bioquímica, tantos processos fisiológicos? Como separar você, eu e a medicina?
Ou some ou soma deveria ser o lema da minha vida agora, no entanto você sabe bem que eu não sou 8 ou 80, não sou morna... Daí fico nessa oscilação maldita que faz meu cérebro trocar a imunologia por você, pelos seus olhos, pelo sabor do seu beijo... Quero ser imune a você. Porque não existe um processo inflamatório quando temos o coração partido? Porque os neutrófilos, monócitos e mastócitos não podem fagocitar lembranças e resquícios de sentimentos não correspondidos?
Nem sempre o corpo é perfeito. Pra coração partido não existe resposta primária e secundária, só existe a dor. O rubor é no começo, quando a correspondência existe e a intimidade é pouca. O turgor e o calor são durante a bonança de um relacionamento feliz, existem durante os beijos apaixonados e o aconchego do abraço. E a dor é agora. Citocina infeliz é essa tal de "amor". Decidiria agora não mais me apaixonar se eu mandasse nisso tudo, mas são todos processos involuntários.

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