sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Nó na garganta



Oi. Há muito tempo não escrevo nesse blog, tenho estado muito introspectiva... Faz um tempo que não me expresso, nem por vídeo nem por texto nem por fotos e nem por nenhuma outra mídia. Não sei ao certo o porquê de tudo isso (eu nunca sei), mas hoje está tão pesado e eu quero tanto desabafar que escolhi o único lugar que ninguém vai me julgar (talvez nem ler): o blog.
Vou começar meu desabafo falando um pouco sobre a minha vida e a minha história. Tudo começou quando eu nem existia... Minha mãe, Lourdes, a primeira dos 12 filhos que minha avó teve, nasceu em Açu - RN e viveu no estado até os 20 anos. Sua vida e de seus irmãos sempre foi muito simples, pra não dizer miserável em alguns momentos quando só tinha feijão e farinha pra comer. Devido à falta de recursos (todos eles), ela começou a trabalhar com 9 anos como babá, depois como faxineira, e foi dentro das casas nas quais ela trabalhou que o aprendizado de que o melhor caminho para melhorar de vida era o estudo se firmou na cabeça dela. Aos 17 anos ela saiu de casa (por motivos que não vêm ao caso no momento) e se casou com o namorado que tinha na época - não porque o amava, mas porque morar sozinha naquela época antes de se casar deixava as mulheres "mal faladas". Com tudo, ela teve que abandonar o último ano da escola para trabalhar mais e assim pagar as contas da casa dela. Nessa época ela trabalhava numa empresa de roupas do nordeste chamada Guararapes. Porém, a violência e o ódio a fizeram fugir novamente, dessa vez em direção ao sudeste do país.
São Paulo, um mundo de possibilidades, mas também um mundo de armadilhas, pra nós duas. Lá ela começou sua vida do zero, cheia de medos e inseguranças num corpinho magro de 45kg e 1,58m. Trabalhou como doméstica, conheceu aquele que seria seu carma (meu pai), fez um curso de cabeleireira, adquiriu uma profissão.  Cresceu inocente e cega, sem malícias, só queria casar e formar família. "Se meteu onde não foi chamada" - na família para a qual não foi chamada. Foi roubada, maltratada, desrespeitada por anos. Lutou por tudo, até para engravidar. Sofreu por tudo, até para "parir". Seis anos de tentativas e eu surgi como quem não quer nada no útero dela. Cresci, nasci, aí começa minha história.
17 de abril de 1996, Guarulhos, SP. Estava chovendo (disse minha mãe) às 20:00h quando eu finalmente saí, cianótica, do forninho. Quase 42 semanas de gestação. Dizem que eu sou lerda, até pra nascer o fui.
Cresci, inevitavelmente. Fui cercada por pessoas que viria a pensar que conhecia, que me amavam. Entretanto, amor é um sentimento muito relativo. Eu não aprendi a amar nem a mim mesma, o que dirá amar outro alguém. Ainda estou tentando aprender.
Aos 4 anos, em 2000, quando meu irmão era só um bebê, vi meu pai bater na minha mãe. Era barulhento, eu sentia o cheiro do medo e era fétido. Me escondi de baixo da cama, ali não havia monstros na minha concepção. O monstro estava lá fora, batendo na minha mãe. Havia sangue no rosto dela, mas não tinha sirene, ninguém chamou a polícia. Era pra ser assim?
Aos 10 anos tinha pleno conhecimento do que era sexo, motel, traição. Meu pai traía a minha mãe, desde sempre. Doeu nela, doeu em mim, doeu no meu irmão que nem entendia nada ainda. Quem ensinou pra ela que aquilo era normal? Que homens fazem essas coisas? Que homens são todos iguais? Quem ensinou tudo isso pra mim também? E eu menstruei. Já era uma mulher?!
Ela tentou de novo. Aos 12 eu estava mudando de cidade sem perceber o que aquilo acarretaria na minha vida, na da minha mãe e na do meu irmão. Pensamentos errados, escolhas erradas. A ficha caiu tempo demais depois.
Daí pra frente a vida voou. Minha mãe parou de trabalhar, meu pai não parou de trair e de mentir, eu e meu irmão continuamos crescendo. "Você está ridícula", "Parece um monstro deitada desse jeito", "Você não tá gorda, só ocupa um pouco mais de espaço". Eu ouvi tudo isso do monstro, e essas frases floresceram dentro de mim como a roseira mais negra e mais cheia de espinhos que alguém já possa ter visto. Doeu.
Crescer dói, e dói mesmo. Você se constrói e desconstrói inúmeras vezes na tentativa de se encaixar de uma forma melhor da próxima vez. Mas nunca está bom o suficiente, nem pra você mesma nem pra ninguém. E "você precisa ser a melhor em tudo que fizer". "Não faz mais do que a sua obrigação".
Aos 15 tive depressão, ninguém viu, ninguém quis ver. Era só preguiça, "você não tem doença nenhuma", "para de dormir um pouco, vai ver o sol". Eu pensava: quando eu fizer 18 tudo vai melhorar, eu vou morar sozinha, vou trabalhar, vou ser independente. Não fui.
Aos 16 comecei a namorar o cara que viria a marcar minha vida com traição e mais sofrimento. Porquê eu? De novo? A vida só gira em torno disso mesmo? Minha mãe estava com câncer.
Aos 18 saímos de casa, minha mãe voltou a trabalhar, eu comecei a trabalhar, e nascemos de novo. Nascemos pobres, mal-falados, afastados. Nem todo mundo me amava de verdade. As pessoas só amam as fofocas, as possibilidades de vantagem. Nem a si mesmo as pessoas amam.
Aos 19, passei em medicina. Mas é pública? Mas vale a pena? 6 mil por mês. Vai ter fies?
"Eu não tenho dinheiro, não vou te ajudar". Nem um parabéns. Tudo é dinheiro.
Fui pra São Paulo, Turma 1, inseguranças. Fies 100%, único jeito. 500 mil de dívida. "Será que vale a pena?". Não há dinheiro pro almoço, nem pra janta. "Cadê o dinheiro que eu mandei?". Meu namoro de 3 anos e meio acabou. Decidi desesperadamente transferir, voltar pra minha cidade, pra minha mãe, pra ele. Parecia um conto de fadas. Ia dar certo.
Fui pra São José do Rio Preto, Turma 6, mais inseguranças. Meu namoro não voltou. Demorava 3 horas pra chegar em casa. Ainda falta dinheiro. Escolhi errado (?), de novo.
Aos 20 conheci outro rapaz, comecei a namorar. Difícil confiar de novo. Tá dando certo.
Aos 21, ainda estou na faculdade. 500 mil de dívida, sem pai, mãe depressiva e ansiosa, sem dinheiro, poucos amigos, sem esperança. O desespero bate em horas imprecisas.
15 mil pra formatura, 1 mil pra festa, 1 mil por mês pra passar na residência, 600 reais cada prova, queria viajar, queria tirar carta, queria comprar roupa, precisava de avaliação oftálmica, "agora não dá". Sem pai. Mãe depressiva, ansiosa, sem ajuda. Meu irmão vai prestar vestibular,  não sabe o que quer. "Medicina não". Acho melhor não mesmo. Não há emprego pra todo mundo, eles dizem. Não há carreira, não há remuneração, não há residência. Não há nada. "Devia ter feito pública", "não consegue nem transferir". Parece tão fácil...
O que era pra ser a medicina e o que é de fato? O que eu faço dentro dela? Ela me engole, e eu finjo que está tudo bem.
Está tudo bem.
Está tudo bem?
Está?!
E...

Não está.

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